Como vemos o mundo

O Século XXI avança a passos largos. Na esteira de um crescente conhecimento científico e tecnológico, estamos transformando diariamente nosso modo de vida, impactando a forma como trabalhamos, nos relacionamos e, principalmente, como projetamos e construímos o futuro. A sociedade contemporânea, com sua crescente complexidade, dedica-se cada vez mais a mapear, delimitar e escrutinar todos os fenômenos da vida humana, produzindo e compartilhando informações quase que instantaneamente. Alteramos o velocímetro da história de maneira que temos a sensação de que o tempo corre cada vez mais rápido e a vida está em permanente transformação, o que pode ser medido pelo volume de informações que são processadas diariamente e que são capazes de provocar novas revoluções a cada 24 horas. Em suma, novas tecnologias se impõem e condicionam nossa forma de viver, exigindo um senso de adaptação à nova realidade como nunca antes.

neonbrand-KYxXMTpTzek-unsplash

Podemos afirmar, acompanhando algumas vertentes da teoria social, que uma das marcas da sociedade complexa é o crescimento do individualismo reflexivo. Ancorado na crescente presença das tecnologias da informação e comunicação, o individualismo reflexivo se caracteriza por fazer da busca pelo conhecimento uma prática de vida e um instrumento para uso corriqueiro, autorizando cada um de nós a elaborar questionamentos sobre a existência de uma forma sistemática e sem depender, necessariamente, da autoridade de instituições sociais como a escola e a igreja. A disponibilidade da informação e do conhecimento, os quais assumem um caráter de commodities, oferece a cada individuo, ao mesmo tempo que exige dele, um engajamento abnegado no tratamento, depuração e, finalmente, curadoria dessa complexidade cognitiva.

Não obstante esse conjunto de mudanças que possibilitaram uma maior liberdade de usos e re-usos do conhecimento, ainda nos deparamos com a necessidade de fazer as mesmas perguntas que mobilizaram os esforços de pensadores da antiguidade: Quem somos? Para onde estamos indo? Qual o sentido da existência? O que significa ser feliz? É bem verdade que não são poucos os que tentam responder essas perguntas, já que de alguma maneira elas parecem estar mesmo na ordem do dia do ser humano ao longo de toda a história. Nos tempos atuais, no alvorecer da sociedade do conhecimento, não precisamos procurar muito para encontrar respostas, algumas delas realmente muito sofisticadas e consistentes, mas a grande maioria bastante superficial e voltada tão somente à colorir a existência humana com algum otimismo.

the-thinker-1431333_960_720 (1)

Em razão dessa tendência, o campo de estudos sobre autoconhecimento tem florescido muito nas últimas décadas, mobilizando um grande número de pesquisadores, ativistas temáticos e entusiastas de um projeto humanista, dedicados a fazer brotar alternativas para esse indivíduo contemporâneo desejoso de conhecimento sobre si mesmo e carente de formas mais eficazes para lidar com as frustrações, ansiedades e, sobretudo, falta de sentido para a vida. Através de diversificadas chaves de compreensão, variando em virtude da sua origem teórica e proposta metodológica, encontramos termos como desenvolvimento pessoal, auto-consciência, auto-desenvolvimento ou auto-realização, ganharem considerável presença no vocabulário cotidiano. Pautar as principais questões que tornam nossa vida uma aventura existencial tão rica e tão complexa é uma rotina que tem assumido um significativo espaço no debate popular, no mercado editorial e até mesmo no mundo corporativo.

Na contemporaneidade, esse movimento parece ter um caráter bem específico. Recebemos influências das tradicionais religiões monoteístas, como o cristianismo ou o judaísmo, das especialidades científicas como a medicina, a psicologia e as ciências humanas e das milenares filosofias ocidental e oriental, deixando para nós a impressão de que existem ofertas para todos os gostos e respostas para todas as perguntas, bastando para isso escolher em um catálogo aquilo que mais nos agrada, mesmo que possamos ir mudando de ideia conforme o tempo vai passando. Mais do que a obrigação de nos mantermos fiéis a uma única forma de ver o mundo, experimentamos o direito individual da liberdade de consumir e expressar idéias e valores propalados pelas mais diferentes perspectivas. Argumentos religiosos, científicos e filosóficos podem co-habitar dentro nós, mesmo que sejam tecnicamente incompatíveis; não nos sentimos obrigados a excluir nenhum ponto de vista e de utilizá-los quando melhor nos parecer.

jessica-ruscello-OQSCtabGkSY-unsplash

De fato, uma das marcas do individualismo reflexivo tem sido o sincretismo que cada um de nós realiza a partir das variadas fontes de informação e conhecimento a que temos acesso, construindo nossa “própria filosofia de vida”. Está mais na moda se dizer espiritualista do que religioso; se dizer um eclético buscador da espiritualidade do que um fundamentalista pautado em uma única tradição de conhecimento; se afirmar um espírito livre de dogmas cuja única autoridade que reconhece é a da sua experiência pessoal do que um devotado seguidor de determinadas escrituras e textos sagrados. Nos tornamos cada dia mais curiosos e a ausência de barreiras para acessar o conhecimento, antes expressa pelas diferenças linguísticas, distâncias geográficas ou mesmo custo financeiro elevado, tem agora esvanecido parte das dificuldades que nos limitavam no mundo antigo. Quando observamos nosso mundo com as lentes da análise social veremos a demanda crescente por ferramentas teóricas e práticas para nos garantir inteligência emocional e todo o tipo de aperfeiçoamento das nossas qualidades ou correção das nossas faltas, fazendo a busca por autoconhecimento se constituir em uma decorrência lógica de todo esse processo.

Mas será que esses fenômenos sociais atestam que estamos nos tornando mais sábios e vivendo uma vida mais plena? Certamente não, sobretudo se observarmos o crescimento das patologias psíquicas – do stress aos graves transtornos de ansiedade – bem como dos conflitos sócio-culturais que ganham novos capítulos a cada dia na nossa história. E foi justamente no limiar do paradoxo entre nos tornarmos uma sociedade com mais acesso à informação e ao conhecimento e o crescimento massivo do sofrimento existencial, que foi gestada nas últimas décadas uma sincretismo teórico bastante heterogêneo que procura dar vazão ao que chamaríamos de Autoconhecimento, mesclando saberes tradicionais com técnicas e práticas que pretendem customizar o ascetismo de filósofos e religiosos do passado para os homens e mulheres ansiosos e assoberbados do presente. O que outrora significava dar a própria vida para ter alguns vislumbres da verdade sobre o cosmos e sobre si mesmo, em uma jornada dolorosa para enfrentar a escassez de informações, agora significa filtrar a informação que chega e de algum modo produzir conhecimentos que nos ofereçam segurança ontológica, ou seja, a garantia de que encontraremos uma ordem lógica no universo e de que as coisas se desenrolarão sem nos causar surpresa.

O número de métodos e práticas que se apresentam como um caminho para o autoconhecimento é hoje bastante elevado e foge dos objetivos desse ensaio fazer uma apreciação de todo esse universo. Ao invés disso queremos explorar algumas possibilidades de respostas para experiências humanas seminais, amparados no debate científico e filosófico do século XXI, sem deixar de apontar caminhos possíveis para desenvolver o conhecimento de si em uma perspectiva mais rica e profunda. Se por um lado falar em autoconhecimento pode parecer uma obviedade ou uma insistência saturada pela enorme quantidade de informações que brotam a esse respeito em todas as mídias, por outro lado sua força originária e seu enigma fascinante permanecem preservados para quem ousar se aventurar na sua verdadeira profundidade.

kuala-1090749_960_720

Cabe então perguntar: O que significa conhecermos a nós mesmos? Se esforços estão sendo feitos e as respostas estão sendo dadas, certamente não será a pura e simples massificação dessas abordagens a solução para nossas angústias e nem será apenas uma questão de tempo para que todos alcancem um entendimento profundo sobre si mesmos. Descobrir quem realmente somos é uma tarefa que exige muita atenção e ao lidar com esses processos encontramos a angústia e a ansiedade, desequilíbrios cada vez mais comuns nos nossos dias. Desse modo, o que está em jogo é a qualidade daquilo que estamos fazendo sob o nome de autoconhecimento e eis aí nosso ponto de partida. Para começarmos a responder essas perguntas será necessário dar um passo atrás e definirmos desde já o que estamos entendendo por autoconhecimento, para em seguida colocá-lo em prática na análise de diferentes campos da experiência humana.

light-bulb-1246043_960_720

Pensando nesse contexto resolvemos criar a Humanitas21 para pesquisar, compartilhar, facilitar e, acima de tudo, construir uma educação possível para o autoconhecimento. Acreditamos que através de atividades de diferentes modalidades como palestras, aulas, encontros e cursos podemos participar desse esforço coletivo que a humanidade vêm empreendendo para viver melhor e atender sua necessidade de encontrar respostas para os enigmas da vida. Nosso modo de fazer isso é aproveitar os conhecimentos contidos em várias vertentes da filosofia, ciências humanas e ciências das saúde, sistematizando e criando novas chaves de compreensão através de um diálogo interdisciplinar.

Reconhecemos nos seres humanos a capacidade para perceber sensações através de um corpo que fala permanentemente conosco; experimentar sentimentos através dos quais damos sentido às emoções oriundas desse corpo; organizar pensamentos de forma racional para conferir um ordenamento ao cosmos; e ainda acessar intuitivamente aspectos da realidade que não estão dados pelos sentidos, mas que mesmo assim são conscientemente vivenciados como algo natural e repleto de significado. Somos capazes de expressar essas potencialidades de maneiras diversas – através da linguagem, da cultura, da religião e da ciência – sendo todas elas tentativas de decodificar as objetividades e as subjetividades das quais a natureza é feita.

Queremos com isso catalisar o potencial de cada indivíduo, facilitando a sua capacidade de traduzir informações e experiências em um mapa de significados com o objetivo de promover o autoconhecimento, entendido não como a produção de uma auto-imagem para a contemplação de qualidades e defeitos, mas como uma experiência de contato com verdades essenciais sobre as quais precisamos estar conscientes para criar uma vida com sentido. Não vendemos fórmulas para a felicidade ou para o bem estar, pois não acreditamos nas facilidades de métodos que visam unicamente trazer um conforto superficial. Nosso intuito é promover uma abordagem crítica e realista para quem deseja ir além do imediatismo e encarar o autoconhecimento como um processo permanente de descoberta.

telescope-2127704_960_720